apelos

O apelo do teatro à poesia é essencialmente um apelo à liberdade. Jacques Copeau

 

Todos nós. Todos nós.

 

MAXIMILIAN (com firmeza): Mas “Nós” temos alma. CARCEREIRO (voz alta): Alma, Maximilian, só você é que tem.

 

MAXIMILIAN (em comoção): Todos nós temos alma. Ouvem-se risos fora da cela.

 

JOALHEIRO (referindo-se aos SS. Ferino): Eles também?

 

MAXIMILIAN: Todos nós. Todos nós.

 

CARCEREIRO (colérico, voz baixa): Maximilian, você quer me dizer que esses filhos da puta tem alma? O que é a alma então? O que é? Eu não posso ter nada que eles têm

Hilst, 2008, p. 249, As aves da noite

silêncio para sorver pessoas

A taurina Ana Paula Anderson, em franco inferno astral, arte educadora da oficina de Colagem, teve a chance de receber no sopetão desta quarta feira, 17 de maio, alguns alunos do EJA, um projeto de alfabetização para Jovens e Adultos da Secretaria da Educação.

Chegaram na Biblioteca Monteiro Lobato, em São Bernardo do Campo, senhoras e senhores únicos.

Nada mais teve tanto valor.

Todos arrebatados.

Os vidros novos daquela biblioteca.

Transparência quando dá deixa mesmo a gente olhar e ver, enquanto aprende fazer mais silêncio.

:”)

Fotos: Ana Paula Anderson

 

CHAMAMENTO PARA RESIDÊNCIA antroHH

O Chamamento para Residência Artística HH contemplará 01 projeto a ser desenvolvido durante a estadia de 15 dias na Casa do Sol, o Instituto Hilda Hilst. As inscrições estão abertas de 20 de maio da 01 de junho de 2017 (até 23h59). O selecionado terá direito a estadia ininterrupta de 02 semanas nas instalações da Casa do Sol (Rua João Caetano Monteiro S/N, Quadra B, Chácara Casa do Sol, Pq Xangrilá. Campinas/SP. CEP 13098-605), no período de 24 de Junho a 01 de Julho de 2017.

 

REGULAMENTO
– O autor do projeto deve fazer sua inscrição através do formulário disponível neste LINK. Todos os campos  do formulário são obrigatórios.
– São parâmetros de seleção:  qualidade do projeto, trajetória do projeto ou de seu autor, pertinência e viabilidade da proposta.
– São aceitos projetos coletivos, mas é preciso eleger um representante responsável, que fará a residência (a inscrição deve ser em seu nome).
– O juri é composto por: Olga Belinky, artista plástica e moradora da Casa do Sol; Tatiane Vesch e João Maia, curadores do AntroHH.

– O nome do projeto selecionado será divulgado até o dia 10 de Junho 2017, pelo site: antrohh.com/residenciahh 

-O residente selecionado compromete-se a conhecer os termos do Programa de Residências do IHH (link), e a participar de todo o período da residência que este chamamento oferece.

– Os gastos com transporte do residente até Casa do Sol, bem como com sua alimentação durante o período da residência são de responsabilidade do próprio residente.

– O residente se disponibiliza a compartilhar com a equipe AntroHH seu processo, respondendo a 2 entrevistas durante a estadia na Casa do Sol, e cede o uso de imagens e informações do projeto selecionado para fins culturais e promocionais.

CRONOGRAMA
20 Maio:  abertura das inscrições

01 Junho: encerramento das inscrições
10 de Junho: divulgação do projeto selecionado no site
24 de Junho: início da residência
01 de Julho: final da residência

– A inscrição no Chamamento para Residência Artística HH implica no conhecimento aceitação integral dos termos deste regulamento.

#parteaparte

à chuva que não veio devemos os vivas desta estreia e tb  àquela infinidade de pessoa que se movem para que esta generosa mão esteja aberta no jardim da Casa das Rosas nos finais de semana deste mês cinco.

#parteaparte #antrohh #hildahilst #casadasrosas

#parteaparte no jardim da Casa das Rosas

 


A escultura interativa desenvolvida pelo Coletivo Binômio estará, durante os finais de semana de maio, esperando a todos na Casa das Rosas.

Uma mão gigante que responde a mensagens enviadas pela Internet com versos de Hilda Hilst, sons, movimentos e luzes.

Para participar, envia um tweet com a hashtag #parteaparte.

Os versos hilstianos proferidos durante a interação são originários deste sarau online, participe!

Todos os sábados e domingos de Maio, de 14h30 até 19h30.
Em caso de chuva não há #parteaparte.

 

sonora

Martín Briano, nosso maestro, veio de Buenos Aires a São Paulo passar duas – ainda não terminadas – semanas para ministrar a oficina de Trilha Sonora no Instituto Criar, no Bom Retiro.

O argentino falou coisas importantes e fez pensar sobre frequências, dinâmicas e outros simples mistérios como ler em voz alta uma lista de palavras colhidas de textos de Hilda Hilst e falar português num sotaque porteño sem qualquer pudor, como quem diz “arena” sem querer dizer “areia”. Querendo ouvir o que dizem daí: e se riem todos. Pronto.

 

Fotos: Martín Avaro

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1ª carta ao nada assinada por nós

Não seremos apresentados

e falar com você agora

atreve tocar e desossa

mas vale dizer

que endereçaremos linhas preenchidas

e lacunas

para você, senhor do plural

somos e sois.

s t o p motion

Artur Carvalho esteve por quatro dias no Instituto Criar com a oficina de stop motion.

Quem foi fez o que quis aprender:

Fotos: Martín Avaro

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bordar hilda hilst nesta fronha

dizemos fronha porque já não dá para afirmar que não dormimos acordados

e hoje foi ouvido em vigília um trecho da boca da própria Hilda que chegou aqui depois de encher tudo por onde passou, e diz:

 

”  p a  r  a      c  o  m  e  ç  a  r      a     m  e      d  i  z e r ”

olhar por um tempo essa pintura do John Gall,

aqui o podcast pra quem quiser ouvir uns sussurros.

 

08 de março

Quem esteve no Instituto Criar neste 08 de março, dia das mulheres, ouviu Ana Paula Anderson falar sobre Hilda Hilst, adaptações literárias e convidar a fazer colagens.

Hilda nunca vista antes,

não refém do caos,

mais pra agente

faz assim com a cabeça

e todos parecem querer mais,

cumprir menos,

transcender.

um passo por vez

e foram dados vários

como podemos conferir nestes fragmentos ouvidos a este respeito:

“uma menina pediu para levar uns poemas da hilda pq gostou muito”

“um menino ficou admirando a colagem que ele fez dizendo: primeira vez q eu faço algo q eu gostei”

“e outras querem voltar outro dia para fazer mais”

Foi assim a inauguração da série de oficinas audiovisuais que vão até o fim de Março:

Fotos de Martín Avaro.

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encontro

Ainda que não morra
o poeta há de sentir
o que não vive para escrever.
Longe daqui a mortificação cristã. Querer bicho enjaulado é não querer.
Aqui a cintilância e todo breu dissonante do que não tem como mostrar beleza ainda.

Um final de semana antes do carnaval, 17, 18 e 19 de Fevereiro, AntroHH foi ao salão da Vila Yamaguishi, um coração aos cuidados de todos, para receber, sob a guiança de Christiana Ubach, Miguel Atensia e Ana C. Monzón, os inscritos no encontro imersivo de dança teatro e poesia de Hilda Hilst.

Sem poder afirmar, sobram garantias de que estavam todos disponíveis ao encontro e ao desencontro tão necessário.

 

DIA 01
Miguel estendeu sua lona de cuidados, montou uma roda, deixou falar um por um e propôs ouvir. Valioso começo. Com esta quase impossível tarefa todos permaneciam ocupados o bastante para não notar Hilda em sua alegoria cirúrgica; luvas, vento, todo tipo de aparelhagem e a obscenidade de enxergar ela mesma os meninos ali, verdes de tudo e claramente desejosos de sua faca.

Bolinho de abóbora com batata e café preto num primeiro lanche juntos.

No silêncio Hilda transparecia óssea demais, pontiaguda.

Delicioso caldo de legumes no jantar: mais abóbora, batata, cenoura, cebola e alho.
Pós sopa, vencida a ilusão da chegada, outra roda de conversa.
Miguel, destemido, insiste: ouçamos este som aqui, e dá o play num ruído branco, coisa de 2 minutos no máximo.

Pra não faltar ao momento, aqui um relato despretensioso feito à máquina durante a roda de conversa:

Uma capacidade coletiva de guardar tensão e esperar o susto. Fim da noite: tempestade de raios. Luz violeta óssea. Sobrava no ar um desejo atravessado: Alguém tem que ferí-los, sussurrou Hilda Hilst, guardando sua fina faca depois de usar. Quanto privilégio tem um poeta morto!
Perturbados o bastante para não dormir, mas aconchegados o suficiente por tanta madeira, dormiram todos, não sem saber que já estavam golpeados.

DIA 02
Pela manhã muitos relatos de certa “dificuldade de dormir”. Isso nem de longe nomeia o fato, mas como podiam chamar aquilo? Não dava pra dizer: Um fantasma de branco se levantou em mim e saiu num duelo de facas naquela chuva de raios.
Calma.
Café da manhã.
Embelezamento do salão.


Nem tudo é o que se forma ao redor. Nesta manhã houve espaço para ver, ou talvez isso seja ouvir, o eixo em torno do qual se forma o temporal em cada um. O fato brilhou inconteste: estavam ali, vivendo aquilo, querendo a ponte e a tentativa de ouvir.


Nessa manhã generosa da Vila Yamaguishi, Aninha com seu filho Caetano por dentro, conduziu uma prática que ela mesma gostaria de receber. Nunca uma doação foi tão terna, e na aparente paz daquela doçura o mistério finalmente se mostrou útil ao dar espaço à existência das pessoas. Dar licença. Não há sutileza menos notada e mais necessária.

Almoçar juntos: arroz, feijão, kibe de abóbora, peitos brancos de frango, alface, tomate, algum suco, melancia e anunciada mais meia hora de pausa.

Enquanto as crianças aprendiam a pedir licença ao entrar no galinheiro, os demais formavam um novo círculo num desafio arbitrário com um triângulo no meio. Reticente, Christiana Ubach desliga o ruído e branco:

ao dizer

todo não dito fala.

Por assumir o que sabe ela pediu a todos uma nova apresentação. Não há o que esconder. Quem é você e o que veio fazer aqui? A resposta está na pergunta.

Assim como é dura a luz mais alta, Hilda na boca de Chris vem com Nietzsche, seus camelos, suas crianças e seus leões. A desatenção abençoa às vezes. Por exemplo muita gente ao ouvir n-i-e-t-z-s-c-h-e fez de conta que não entendeu nada. Ninguém foi ali para entender, e a clareza desta despreocupação fez tudo avançar.
Afinal, crianças penduram-se livremente nas vigas dos salões, e ainda que haja desconforto com isso, não vem delas. Camelos pisam com aquela obscenidade no chão, mas mantêm na cara aquela banalidade mascante. Leões atacam e arranham e matam, aí brilham.

 

Saíram todos unhados e acreditando talvez que lhes valesse a sobrevida.

Foi melhor fazer um lanche aqui. E desta vez será mencionada a receita pelo valor de gentileza do ato.
pão do otávio: numa tigela colocar alguns ovos e bater com o garfo; mergulhar fatias de pão de forma nos ovos e lançá-las à frigideira.

Depois que já te abriram na mesa de cirurgia é melhor que a operação se dê logo.
Heruka é quando você percebe o amor como um ato e golpeia para não perder o outro.
Miguel, lindamente golpeado, chamou nova roda e, em cima disso tudo: propôs que todos ali tinham morrido e que olhassem para isso durante o banho e o jantar.

Daqui para frente foi um acordar sem pressa dum procedimento cirúrgico. Anestesia começando a passar e aí aquele choque e o espanto de saber que cura é sentir ainda mais o atrevimento com que nos assola a vida, e não menos.

 

DIA 03
Pós operatório coletivo. Como o sol estava quente.
Panquecas para o café da manhã e a disposição do Felix em trazer mel para acompanhá-las.
O silêncio enquanto mastigavam a panqueca: Houve mesmo um encontro.
Toda essa intimidade traçou uma linha simples e todos foram vistos mostrando seus poemas nos lugares que quiseram.

 

aproveitamos o portal da morte para passar

esse pórtico
essa pira
toda viva
Hilda Hilst
celebramos
num antrohh

.
Hoje há de se lembrar 13 anos da morte de Hilda e aproveitamos o brilho dessa cintilância para inaugurar a segunda edição desse antroHH em festa! 🙂