Atados os ramos
Os fios de linho
As fitas
Teci para nós
A coroa da vida.
Depois fiz a canção:
Gracejos, lascívia
E leveza
Foram primos irmãos
E noivos da conquista.
E de granito e sol
Me parecia o tempo
Dessas vidas.

 

Milênios no depois
Me soube iluminura
Entre os dedos dos mortos.
Poeira e entendimento
Sob a luz dos ossos.

 

 

peça XLII de ‘Cantares de perda e predileção’, escrito na Casa do Sol entre 1981 e 1982.

 

A respeito da obra, Luciana Tiscoski diz, em artigo à UFSC, que

 

A linguagem da voz poética que ressoa nesses cantos
encontra-se com a voz da linguagem da tradição
oral e musical da poesia lírica das trovas galego-portuguesas e
dolce-stil-novistas. O amante predileto é cantado sob o signo
da perda. O canto ao amor é celebração ao dispêndio, quando
a linguagem revela um “entrebescamen textual de fantasma”,
uma busca de conhecimento sem utilidade que leva a infinitos
desdobramentos. É a relação fantasmática de uma antiga tradição
oral da festa e da celebração, de antes ainda, nas elegias
e odes, além da melancolia barroca, que aparece nas páginas
dos cantos de Hilda Hilst. A leitura de Giorgio Agamben em
Estâncias a palavra e o fantasma na cultura ocidental mostra-
-nos a pervivência da teoria do fantasma na elaboração da poesia
moderna ocidental. Segundo Agamben,

 

a teoria do fantasma está subentendida no projeto poético
que a lírica-trovadoesca-estilo-novista deixou em herança
para a cultura europeia e na qual, através do denso entrebescamen
textual de fantasma, desejo e palavra, a poesia
construía a própria autoridade, convertendo-se ela mesma
na “estância” oferecida à gioichemai non fina [alegria que
nunca acaba] da experiência amorosa.

 

Luciana lembra ainda que Eduardo Sterzi cita Paul Zumthor a respeito de sua desconfiança, quando qualquer sorte de medievalismo está no horizonte, da própria palavra literatura ou de qualquer culto ao texto (o que até casa, por acaso, com a interdisciplinaridade não forçada nesta mostra em oficinas não medievais ANTROHH, onde a literatura da Hilda não é mais que só mais um lugar gostoso), pois, diz Zumthor,

 

todo texto poético ou ficcional, dos séculos IX e X
até pelo menos o XIV, transitou pela voz, e este trânsito
não foi aleatório. Mesmo composto por escrito e
na paz de alguma cela, o texto comporta, inscrita nas
suas profundezas, uma intervenção determinante,
que age sobre ele como um poderoso fator de formalização:
a intenção de se dizer [lÊintention de se
dire], quero dizer, de desabrochar [sÊépanouir] num
ato vocal.