bestiário

“O animal é, antes de mais nada, um semelhante. Na medida em que sua existência coincide por completo com a vida orgânica, ele enuncia um plano impessoal, puramente biológico, diante do qual as identidades ficam reduzidas tão-somente às particularidades da matéria. No silêncio de sua insignificância, ele lembra que o homem também contém “o verme no cerne” – conforme a definição de um “prodigioso”, citado numa crônica [de Hilda] –, o que por certo corresponde à consciência impiedosa de que o corpo é provisório e perecível. Assim, se a protagonista de ‘A obscena senhora D’ afirma que o “olho do bicho é uma pergunta sem resposta”, a pergunta que ele encerra desdobra-se em diversas outras, colocadas pela própria autora em primeira pessoa, numa sequência vertiginosa –

 

perfum

 

‘O que é ser feito de carne, heim, gente? E fruta? E maçã, com aquele rego no meio? E boca? E fome? E ser velho e disforme e verrugoso, ainda é ser? E ser uma jovem mula acariciante, mulher, loira ou crioula, é ser o quê? E o que será isso, triste, de ter que morrer?’ –

 

que se conclui, enfim, na indagação:

 

‘O que é estar vivo? E você sabe que o morto fervilha?’

 

– Trecho do ensaio ‘Da medida estilhaçada’, da professora de Literatura Brasileira Eliana Robert Moraes, estudiosa, além de Hilda, de Mário de Andrade, do mangue e do excesso na literatura do século 20 e autora de ‘Sade – A felicidade libertina’ (1994).