Encontrei Hilda Hilst pela primeira vez numa primavera de 1990:

ventava com violência, nuas as árvores da Alameda Tietê. No silêncio da tarde que findava pensei nas galáxias em que Alice Carroll se perdeu, no ventre da baleia com Pinocchio. Reconheci a figura pequena, cabelos louro-avermelhados enrolados num coque, um cachecol de lã enterrado no pescoço, suéter de gola rolê, calças confortáveis, olhos cintilantes, sorriso honesto. Hilda fez que não ouviu a pergunta inicial, cortando com a afirmação da crença em livros a serem relidos. “A montanha mágica, por exemplo”, insistiu, forjando a posição de ícone. Sentia-me muito jovem e incapaz de captar as frases anárquicas e inteligentes do maduro anjo exterminador. Ela me pareceu radiante; depois descobriria que escondia um coração ferido, uma luta genética entre o instinto de sobrevivência e autodestruição.

 

hilda-relato

 

HILDA NASCEU EM JAÚ, no interior de São Paulo, em 21 de abril de 1930. Durante um ano conheci seus segredos, vontades e pavores, como inquilino de fim-de-semana, na casa herdada de sua mãe no Parque Xangrilá, a 12 km de Campinas. A Casa do Sol é um celeiro de energia concentrada, fronteira de vários mundos. Não tem tapetes no chão, nem cortinas nas janelas. O fungo desenha mapas miúdos nas paredes. Floresta majestosa de livros que se erguem em todos os cantos: Ibsen, Tchekhov, Balzac, Stendhal, Goethe. Papéis, lápis, canetas orientais. Uma sala espaçosa, confortável. Amplas janelas que dão para um pomar. Numa extremidade discreta, uma gravura emoldurada de uma dama da Revolução Francesa, que acredita ser uma sua reencarnação. Cristais e uma lareira habitada por morcegos. Caixas, arcas, armários coloniais. O escritório em seu quarto, é o centro da casa. Ali, em torno de frustrações e desejos, escreveu seus melhores livros. Acima do jardim, o sol, a lua, as estrelas e nele, palmeiras, mangueiras e uma figueira encantada, centenária, atendendo súplicas. O ponto preferido dos elementais, os “espíritos da natureza”, como Hilda define-os. “Eles se materializam e se deixam ver só quando querem”, ensinou-me.

 

 

fragmento do fragmento do ensaio HILDA HILST – A CONSCIÊNCIA INQUIETA E ATORMENTADA, de Antonio Júnior