FILOSOFINHA?

confesso que não tenho, nas estantes do meu escritório, uma sessão exclusiva dedicada “à filosofia”, e que não há mesmo muitos livros de filosofia “à moda tradicional” que foram lidos. Algum Heidegger e alguns Nietzsches. Mas o que eu gosto, de cabo a rabo, é de Blake, Pascoaes e Pessoa, meus poetas-filosofos, ou melhor, meus poetas, que entendem, em mim, que pensar sistemas e desmanchá-los é um ato sobretudo genesíaco, de criação, poético. Hölderlin, por exemplo. E junto destes, muito Octavio Paz, todo Blanchot e todo Bataille.

 

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A maneira como a linguagem, na sua figuração mais tautológica, o dá-dá-dá do bebê, é aquela que abre abismos, instiga o lugar nenhum. E nós ficamos ali na deriva, marinheiros de um desejo impossível, já que não há cais na linguagem. Então a gente gargalha com a obscena sérissima senhora D. ou a gente dobra os joelhos numa oração agônica (o que nos abrirá também o cômico, o tragicômico), com Kadosh.

 

– Roberta Ferraz

 

* Está em curso a enquete 3 AUTORAS HOJE SOBRE HILDA, com participação das escritoras Juliana Frank, Ana Cristina Joaquim e Roberta Ferraz. A íntegra da enquete constará na publicação impressa ANTROHH, a ser lançada logo na Casa do Sol (31/10 às 15h00). Cortaremos ao longo dos dias alguns trechos das respostas para o site.

 

** Roberta Ferraz é autora, com Érica Zíngano e Renata Huber, de ‘Fio, Fenda, Falésia[independente, 2010] e ‘Saturação de Saturno[Oficina Raquel, 2013], entre outros.