voz alta

vivência teatral de 3 dias

encontro imersivo em si, hilda hilst e sua obra

encontro

Ainda que não morra
o poeta há de sentir
o que não vive para escrever.
Longe daqui a mortificação cristã. Querer bicho enjaulado é não querer.
Aqui a cintilância e todo breu dissonante do que não tem como mostrar beleza ainda.

Um final de semana antes do carnaval, 17, 18 e 19 de Fevereiro, AntroHH foi ao salão da Vila Yamaguishi, um coração aos cuidados de todos, para receber, sob a guiança de Christiana Ubach, Miguel Atensia e Ana C. Monzón, os inscritos no encontro imersivo de dança teatro e poesia de Hilda Hilst.

Sem poder afirmar, sobram garantias de que estavam todos disponíveis ao encontro e ao desencontro tão necessário.

 

DIA 01
Miguel estendeu sua lona de cuidados, montou uma roda, deixou falar um por um e propôs ouvir. Valioso começo. Com esta quase impossível tarefa todos permaneciam ocupados o bastante para não notar Hilda em sua alegoria cirúrgica; luvas, vento, todo tipo de aparelhagem e a obscenidade de enxergar ela mesma os meninos ali, verdes de tudo e claramente desejosos de sua faca.

Bolinho de abóbora com batata e café preto num primeiro lanche juntos.

No silêncio Hilda transparecia óssea demais, pontiaguda.

Delicioso caldo de legumes no jantar: mais abóbora, batata, cenoura, cebola e alho.
Pós sopa, vencida a ilusão da chegada, outra roda de conversa.
Miguel, destemido, insiste: ouçamos este som aqui, e dá o play num ruído branco, coisa de 2 minutos no máximo.

Pra não faltar ao momento, aqui um relato despretensioso feito à máquina durante a roda de conversa:

Uma capacidade coletiva de guardar tensão e esperar o susto. Fim da noite: tempestade de raios. Luz violeta óssea. Sobrava no ar um desejo atravessado: Alguém tem que ferí-los, sussurrou Hilda Hilst, guardando sua fina faca depois de usar. Quanto privilégio tem um poeta morto!
Perturbados o bastante para não dormir, mas aconchegados o suficiente por tanta madeira, dormiram todos, não sem saber que já estavam golpeados.

DIA 02
Pela manhã muitos relatos de certa “dificuldade de dormir”. Isso nem de longe nomeia o fato, mas como podiam chamar aquilo? Não dava pra dizer: Um fantasma de branco se levantou em mim e saiu num duelo de facas naquela chuva de raios.
Calma.
Café da manhã.
Embelezamento do salão.


Nem tudo é o que se forma ao redor. Nesta manhã houve espaço para ver, ou talvez isso seja ouvir, o eixo em torno do qual se forma o temporal em cada um. O fato brilhou inconteste: estavam ali, vivendo aquilo, querendo a ponte e a tentativa de ouvir.


Nessa manhã generosa da Vila Yamaguishi, Aninha com seu filho Caetano por dentro, conduziu uma prática que ela mesma gostaria de receber. Nunca uma doação foi tão terna, e na aparente paz daquela doçura o mistério finalmente se mostrou útil ao dar espaço à existência das pessoas. Dar licença. Não há sutileza menos notada e mais necessária.

Almoçar juntos: arroz, feijão, kibe de abóbora, peitos brancos de frango, alface, tomate, algum suco, melancia e anunciada mais meia hora de pausa.

Enquanto as crianças aprendiam a pedir licença ao entrar no galinheiro, os demais formavam um novo círculo num desafio arbitrário com um triângulo no meio. Reticente, Christiana Ubach desliga o ruído e branco:

ao dizer

todo não dito fala.

Por assumir o que sabe ela pediu a todos uma nova apresentação. Não há o que esconder. Quem é você e o que veio fazer aqui? A resposta está na pergunta.

Assim como é dura a luz mais alta, Hilda na boca de Chris vem com Nietzsche, seus camelos, suas crianças e seus leões. A desatenção abençoa às vezes. Por exemplo muita gente ao ouvir n-i-e-t-z-s-c-h-e fez de conta que não entendeu nada. Ninguém foi ali para entender, e a clareza desta despreocupação fez tudo avançar.
Afinal, crianças penduram-se livremente nas vigas dos salões, e ainda que haja desconforto com isso, não vem delas. Camelos pisam com aquela obscenidade no chão, mas mantêm na cara aquela banalidade mascante. Leões atacam e arranham e matam, aí brilham.

 

Saíram todos unhados e acreditando talvez que lhes valesse a sobrevida.

Foi melhor fazer um lanche aqui. E desta vez será mencionada a receita pelo valor de gentileza do ato.
pão do otávio: numa tigela colocar alguns ovos e bater com o garfo; mergulhar fatias de pão de forma nos ovos e lançá-las à frigideira.

Depois que já te abriram na mesa de cirurgia é melhor que a operação se dê logo.
Heruka é quando você percebe o amor como um ato e golpeia para não perder o outro.
Miguel, lindamente golpeado, chamou nova roda e, em cima disso tudo: propôs que todos ali tinham morrido e que olhassem para isso durante o banho e o jantar.

Daqui para frente foi um acordar sem pressa dum procedimento cirúrgico. Anestesia começando a passar e aí aquele choque e o espanto de saber que cura é sentir ainda mais o atrevimento com que nos assola a vida, e não menos.

 

DIA 03
Pós operatório coletivo. Como o sol estava quente.
Panquecas para o café da manhã e a disposição do Felix em trazer mel para acompanhá-las.
O silêncio enquanto mastigavam a panqueca: Houve mesmo um encontro.
Toda essa intimidade traçou uma linha simples e todos foram vistos mostrando seus poemas nos lugares que quiseram.